Helenismo,Valores e Crenças


Helenismo Moderno: Fonte do Conhecimento
O politeísmo helênico não é uma “religião do Livro” no sentido abraâmico, em que crenças, ritos, doutrinas estão encerrados numa espécie de manual milenar petrificado no tempo e espaço. A Sabedoria Helênica estava fundamentada nos costumes estabelecidos pelos ancestrais, passados de geração em geração. Estava na voz de cada grego que praticava seu modo de vida, sem centralização numa figura de autoridade clerical ou qualquer outra. Isso permitiu que princípios, ideias e crenças pudessem se transformar e se adaptar a novas realidades sociais, mantendo a essência.
A religião dos helenos não surgiu de uma Revelação de profeta ou messias, apesar de terem existido oráculos reconhecidos pela sociedade a fim de guiar os buscadores no campo religioso, na vida doméstica e social. Não há sacerdócio que obtenha controle sobre o que se deve acreditar ou não, como ocorre no Cristianismo, por exemplo. O sacerdote antigo era basicamente administrador de santuários e festivais, junto de outras figuras de poder.
No neopaganismo moderno existem muitos caminhos até os Deuses gregos, mas como já explicado noutra sessão do site, como helenistas, reconstrucionistas helênicos ou phillohelenos o que nos interessa e serve de fundamento é o arcabouço de conhecimentos produzidos pelos antigos gregos. Importante notar: o trabalho do politeísta helênico moderno é lançar olhar crítico ao passado que contém uma riqueza enorme de conhecimentos, e assim refletir em como auxiliar na revitalização adequada de uma tradição milenar étnica noutro contexto social e temporal, sem descaracteriza-la ou mutilá-la.
Teologia
Teologia é um termo cunhado pelos antigos helenos, significando "discurso racional ou estudo dos deuses". Uma investigação sobre a espécie divina e sua relação com o Cosmos e os seres viventes. Normalmente é um campo de estudo prioritário dos filósofos, ao lado da Ética e da Física. O Platonismo, Epicurismo e Estoicismo nos legaram imensas contribuições teológicas. Os grandes poetas, como Hesíodo e Homero também foram considerados teólogos. O discurso teológico não era propriedade de nenhuma casta sacerdotal, grupo filosófico ou social: todas as camadas da cultura grega contribuíram com esta área do saber.
Mito, Rito e Imagem
Mito, rito e representação figurada eram as linguagens pelas quais a experiência religiosa dos gregos se expressava. Para os Antigos havia uma tradição oral, os costumes dos ancestrais (NOMÓI), os mitos (Mythói), culto e crenças locais que podiam variar de cidade para cidade, sem que houvesse exatamente “certo ou errado”, mas ainda dentro de uma religiosidade comum à Hellás. Genealogias divinas, tipos de oferendas, simbolismos e funções dos deuses podiam alterar de região para região. No Helenismo, o Mito é sagrado, o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial. Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de algo, que não era, começou a ser. É sempre uma representação coletiva transmitida de geração em geração. Contudo, os mitos devem ser interpretados com cuidado, e quase nunca de forma literal. Por isso, entre os helenos se desenvolveu a Interpretação Alegórica, que entende essas narrativas como simbólicas, a revelarem segredos sobre o mundo divino, a alma e o cosmos. Alguns possuem caráter didático e demonstram comportamentos esperados na época antiga, outros contam sobre nossa atitude para com o divino, o que é correto ou errado, entre outros.
"Sobre o problema do Mito ou os Estupros de Zeus"
Politeísmo:
O Politeísmo reflete a riqueza, diversidade e multiplicidade da Vida. Significa que acreditamos na existência de muitos deuses, de categorias diversas, desde os Grandes Olimpianos, aos espíritos da natureza. Os Deuses helênicos não são seres humanos, mas Potências que podem assumem forma humana ou receber representação antropomórfica. Temos ainda os daimones (seres divinos menores), o culto aos ancestrais e aos Heróis e Heroínas. Reconhecemos a existência de deuses e entidades de outras culturas, os respeitamos, mas não significa que iremos cultuá-los. Os Deuses são seres de natureza individual, cada um com suas particularidades, vontades e maneiras de atuação no mundo. Na Teologia filosófica, se argumenta que todo o Cosmos é um ser divino, do qual os Deuses são suas multiplicações e manifestações. Esse raciocínio confundiu muitos estudiosos modernos, levando-os a crer que a Grécia estava se encaminhando para o monoteísmo ao mencionarem uma Unidade (o Uno) divina.
"Sobre os Deuses e nossos problemas"
Kata ta Patria
Kata ta Patria, “de acordo com as tradições ancestrais”. Era extremamente importante para os Antigos. Ser tradicional é componente básico do Helenismo. Os helenos seguiam as costumes de sua terra natal para cultuar os deuses. Hoje, o que tentamos fazer é nos inspirar nessas tradições, reviver o que for possível, sempre lembrando que Adaptações são inevitáveis. O importante é manter a essência, e na prática verá que não é difícil, mas exige senso crítico e inventividade. Sem radicalismos. “Nada em excesso”, “Seja adaptável a tudo” (Máximas Délficas).
"A Religião helênica é essencialmente local e tradicional"
"A Tradição helênica é imutável?"
"Problemas e desafios do politeísmo helênico"
Em relação aos deuses e seus cultos e a tudo o que surgiu para sua honra, acolha as tradições pátrias e a narrativa imaculada sobre eles, para que se direcione apenas à piedade, e não à superstição; que os jovens instruam-se e aprendam a sacrificar e suplicar, reverenciar e fazer juramentos de maneira certa, segundo o senso de medida tomado para si, na ocasião apropriada (Cornuto, Epítome, XXXV, 76).
Eusebeia: respeito apropriado aos Deuses, percepção correta das divindades.
Para os antigos helenos, ser eusebés era respeitar os costumes ancestrais e da pólis (a antiga cidade-estado). Respeitar as leis justas diante dos homens e dos deuses, observar o culto e aos comportamentos rituais fixados pela tradição. O respeito e cuidado com os pais é outro ponto importante da religiosidade helênica. Eusebeia é honrar os deuses na medida adequada, sem excessos. Nutrir devoção especial a determinados deuses, porém sem desmerecer os outros Imortais. É possuir uma relação saudável de amizade frente um ser que é superior, sem, contudo, temer exageradamente ou cair na dependência deles. Honras adequadamente o divino é caminhar numa via contrária a da Deisedaimonia, o medo excessivo do além ( ou do divino). A eusebeia se manifesta principalmente em ações, configurando-se nos ritos e na atuação social. Para a mentalidade grega, a Eusebeia era simplesmente uma parte da Justiça ou Direito, a virtude suprema, porém, relativa aos Deuses. Todos os gregos estavam habilitados a cultuar os deuses, fosse no quadro das festividades da comunidade ou no da devoção doméstica e pessoal, tendo como modelo kata ta patria.
Vida pós-morte
Entre os ritos estabelecidos pelos ancestrais, os funerários eram de alta importância e respeitados. Reverenciar os antepassados é parte fundamental do Helenismo. Quanto às crenças relativas à existência da alma e seu destino pós morte do corpo físico, isso podia variar imensamente. O importante era manter o costume do rito. Existia a crença homérica da alma que sobrevive sem autonomia no submundo, como se fosse apenas um registro de memórias. Outros acreditavam na transmigração da alma e na sua possível purificação da até ser divinizada e imortalizada, se tornando semelhante aos Deuses. Outros ainda defendiam a ideia de que a alma morre e desaparece com o corpo. Culto heróico é outra modalidade. O herói ou heroína costumava ser um grande ancestral, fundador ou figura humana ou semidivina imponente da história primordial das comunidades. Era símbolo coletivo e fonte de ensinamentos através de suas lendas. Podia ser também um curioso personagem ilustrado na epopéia homérica, como coadjuvantes de mitos e ainda assim ter alguma relevância ao povo.
Helenistas, portanto, podem seguir a crença que mais lhe aprouver e ainda assim lembrar de seus antepassados e entes queridos, agradecendo e refletindo sobre o legado que deixaram aos seus descendentes. Afinal, gostando ou não, graças a eles e seus percursos em vida, erros e acertos estamos aqui.
Kháris: Reciprocidade
Kháris: Reciprocidade, beleza, alegria, deleite, bondade, boa vontade, graça, favor, benefício, benção, encanto, atração, apelo, elegância, graça, prazer, alegria, sagacidade, gratidão. A relação com os deuses é baseada na Kháris e deve ser cultivada e mantida através dos atos cultuais, sacrifícios, oferendas diversas. Na maioria das vezes é algo tangível. Contudo, não se exclui apenas o realizar de uma prece, dedicação de poema, etc., conforme a ocasião.. Dessa forma mantemos os deuses próximos de nós, e suas bênçãos também. Ou melhor: nós nos aproximamos Deles cada vez mais. A arte de presentear era muito importante na cultura helênica, inclusive na religiosidade. Agradar, presentear, sem necessariamente obter algo em troca. E amparados pela Kháris podemos fazer pedidos aos Deuses, o que não significa que isso os obrigue a realizá-los.
Kháris: reciprocidade e construção de vínculos com os Deuses
"Religião Helênica e relação pessoal com os Deuses"
Areté: Em busca da Excelência
A cultura helênica, através de suas diversas Vozes, exortam o ser humano à excelência, a uma vida equilibrada e digna. Um ser humano sadio. Ser heleno é buscar viver com Excelência/ Virtude (Areté): para os muitos era o caminho para felicidade. Assim, havia as Aretai (pl. de Areté): Coragem, Temperança, a própria Piedade, Justiça, Sabedoria e muitas outras pontuadas por poetas, legisladores e filósofos. Ser piedoso é ser virtuoso, ser virtuoso é ser piedoso. Além disso, há as Excelências pessoais, nossos grandes pontos fortes. Helenismo é desenvolvimento pessoal. Refine seus potenciais e utilize os dons com os quais nasceu. Uns nascem com carisma, outros com facilidade de oratória, outros com pensamento estratégico. E você?
"Sabedoria Helênica para a Vida"
“Conhece a ti mesmo”
“Elogie a Virtude”
“Exercite a nobreza de caráter”
“Esforce-se com glória”
(Máximas Délficas)
Filosofia
A Filosofia, normalmente encarada com certo preconceito, é elemento importantíssimo nessa grande "pintura" que é a Cosmovisão helênica. Apesar de a religião não ser dependente da Filosofia e dos Filósofos, pode ser enriquecida por ela. Os sacerdotes não tinham a função de "guias espirituais", como ocorre na Cristandade. Então essa tarefa ficou por conta da Filosofia.
A Filosofia helênica “turbina” conceitos-chaves do mundo helênico, renova, atualiza. Principalmente, ao meu ver, no que diz respeito a conduta de vida rumo à “Eudemonia” (Felicidade ou Realização) baseada na “Areté” (Excelência, Virtude, etc). Aqui é pesquisada a essência do Ser Humano, o que é próprio dele para que possa se realizar, seguindo a própria natureza. E quem não deseja descobrir seu propósito e viver da melhor forma possível?
O politeísta helênico que não estuda a Filosofia Helênica vai acabar se deparando com “espaços vazios”. E invariavelmente irá procurar em outras crenças, isso se não retornar mais confuso ainda e resignado ao ponto de origem: os lá da Cruz.
Valorize o rico tesouro legado pelos antigos helenos. O temos em abundância e a Internet facilita imensamente nesse trabalho.
“(...) afirmamos que a função própria do homem é um certo modo de vida, e este é constituído de uma atividade ou de ações da alma que pressupõem o uso da Razão, e a própria função de um homem bom é o bom e nobilitante exercício desta atividade (...) O bem para o homem vem a ser o exercício ativo das faculdades da alma de conformidade com a Excelência, e se há mais de uma Excelência, de conformidade com a melhor e mais completa entre elas.
“O homem feliz vive bem e se conduz bem, pois praticamente definimos a Felicidade (Eudaimonia) como uma forma de viver bem e conduzir-se bem.”
(Citações de Aristóteles, Ética a Nicômacos)
